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Pensamento e Linguagem

Autor: Marilúze Ferreira de Andrade e Silva

Tradução:

Editora: Pós-Moderno

2002

Formato: 14 x 21 cm.

ISBN: 85-89181-02-2

Comentário
Dentre as dificuldades que cercam a noção de “verdade” está a questão de saber qual o item que se pode apresentar como “portador” da verdade. De modo geral, a “proposição” tem sido esse item. O livro de Marilúze, “varrendo” a história, de Platão e Aristóteles, passando pelos estóicos, e chegando aos tempos atuais, com as idéias de Frege e Searle, presta bom serviço a quem pretenda aprofundar estudos relativos a nomes e proposições.

 
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Pensamento e Linguagem


por Leonidas Hegenberg
Professor aposentado do Instituto Tecnológico de Aeronáutica e do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

 


 

Inicialmente, não custa lembrar que a professora Marilúze, depois de obter seu mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com dissertação a respeito de Gottlob Frege (1848-1925), pretendia preparar tese de doutorado no campo da lógica. Obstáculos que se apresentaram na ocasião levaram-na a escrever longo estudo voltado para o desenvolvimento do positivismo em nosso País.

A dissertação de mestrado apareceu em forma de livro, “Introdução à semântica de Gottlob Frege” (Londrina: CEFIL, 1999. 71 p.). A tese de doutorado, defendida na Universidade Gama Filho (UGF), também foi transformada em livro e foi publicada com o título “A Razão e a Emoção: Pressupostos e fundamentos da lógica positiva (Temas polêmicos entre a Lógica Aristotélica e a Lógica Positiva)” (Londrina: Edições Humanidades, 2004).

Em atividades de pós-doutorado, na UFRJ, a professora Marilúze estudou algumas das relações entre pensamento e linguagem. Daí resultou o livro que aqui se comenta – com o subtítulo “Platão, Aristóteles e a visão contemporânea da teoria tradicional da proposição”.

No meu entender, a professora Marilúze tem-se destacado por dois motivos que não posso deixar de sublinhar. Em primeiro lugar, porque participa, ativamente, de congressos, simpósios, encontros e reuniões similares, de várias renomadas entidades, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos (SBEC), de que é sócio-fundador, e a Associação Nacional de Professores de Filosofia (ANPOF). Nesses conclaves, Marilúze apresenta comunicações em que revela suas qualificações como pesquisadora, trazendo à tona questões que despertam a atenção dos demais participantes, alguns dos quais não deixam de elogiar as felizes colocações da autora.

Em segundo lugar, Marilúze tem-se destacado porque contraria tendências comuns de muitos de nossos cursos de filosofia, freqüentemente voltados para assuntos sociais, e se dedica à lógica e à filosofia da linguagem, disciplinas que a maioria dos alunos – e apreciável quantidade de professores – considera pouco dignas de atenção, ou, em casos extremos, “supérfluas”.

Esses dois motivos trouxeram recompensas para a professora, ora conduzida, pelo MEC, ao posto de consultora, encarregada de avaliar cursos de filosofia que várias universidades pretendem instalar ou manter no País.

O livro “Pensamento e linguagem” tem um prefácio, de onze páginas, escrito por Mario A. L. Guerreiro, uma breve introdução (duas páginas) e, no final, as referências bibliográficas (três páginas), em que três livros de Gabriel Nuchelmans ganham especial relevo. No corpo da obra, três seções. A primeira, “Teoria do nome”, volta-se principalmente para Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.). Na segunda, “Teoria da proposição”, se destacam certos comentários de Nuchelmans (relativos a Platão) e digressões em torno dos ‘lekta’. Na terceira parte, “A visão contemporânea da teoria do nome e da proposição”, entre as figuras estudadas destacam-se John Searle e Keith Donnellan.

Marilúze inicia seu estudo da proposição examinando os nomes. O primeiro tema focalizado é a teoria dos nomes, tal como apresentada no diálogo “Crátilo”, de Platão. Em seguida, Marilúze analisa as Categorias de Aristóteles (a fim de caracterizar sinonímia, homonímia, paronímia e a relação sujeito-objeto). Depois disso, retornando ao problema dos nomes, em Platão e em Aristóteles, a autora considera análises de Bernard Williams e de David Charles.

Na segunda parte do livro, dedicada à proposição, Marilúze examina o diálogo “O sofista”, de Platão e as idéias de Nuchelmans sobre a teoria platônica da proposição. Em seguida, focaliza o binômio linguagem-pensamento, em Aristóteles. Destaquem-se as considerações em torno do discurso e a expressão do pensamento (em “De interpretatione”).

A autora dá atenção a certas idéias dos estóicos – comentando, por exemplo, os que diziam dos ‘lekta’. Lembremos que, para estóicos, a filosofia abrangia física, ética e lógica. Esta se dividia em retórica e dialética. Por sua vez, a dialética repartia-se em dois ramos – da língua e das coisas significadas. No exame da língua, os estóicos distinguiam sons vocálicos “genéricos” (que se podiam reduzir a grunhidos) e sons articulados, passíveis de registro em símbolos escritos. De acordo com os estóicos, “proferimos” (emitimos, pronunciamos) sons e “expressamos” itens do discurso – os ‘lekta’ (plural de ‘lekton’), isto é “os exprimíveis”.

Na terceira parte do livro, voltada para análises contemporâneas do pensamento e da linguagem, o primeiro autor analisado é Searle – com seus comentários em torno de idéias apresentadas por Saul Kripke e Keith Donnellan (teorias causal e descritiva dos nomes próprios). Voltando aos seus estudos anteriores, da época do mestrado, Marilúze encerra seu livro com questões de sentido – de nomes e de proposições – em Frege.

Parafraseando o que consta na “orelha” deste “Pensamento e linguagem”¸ entre as dificuldades que cercam a noção de “verdade” está a questão de saber qual o item que se pode apresentar como “portador” da verdade. De modo geral, a “proposição” tem sido esse item. Acontece que ‘proposição’ é termo igualmente cercado por dificuldades. A tentativa de afastar tais dificuldades nem sempre se mostra satisfatória, chegando, não raro, a teorias complicadas e controversas (e até contraditórias).

O livro de Marilúze, “varrendo” a história, de Platão e Aristóteles, passando pelos estóicos, e chegando aos tempos atuais, com as idéias de Frege e Searle, presta bom serviço a quem pretenda aprofundar estudos relativos a nomes e proposições.


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